Condicionamento do livre pensamento através da manipulação da cultura e da comunicação social, Jacinto Rego de Almeida

MESMO QUE ACEITES A TUA REALIDADE, LUTA POR UMA MELHOR

Há um processo de alienação sempre que a transmissão de cultura, incluindo a informação pelos órgãos de comunicação social, não constitui uma experiência vivida, mas apenas se destina a tranquilizar e adormecer os processos de consciência. Observe-se, no caso da informação que serve a cultura de massas dirigida por empresas privadas ou públicas, o excessivo espaço dado ao futebol e à intriga política, o tráfico das redes sociais, o das revistas cor-de-rosa e da violação da privacidade e à descrição parcial e manipulada de acontecimentos tais como desastres e assassínios. Essa informação que podemos caracterizar, de forma ligeira, como o triunfo da inverdade, produz o efeito de apropriação dos processos de consciência socialmente nocivo. E tem em vista a defesa de elevados interesses políticos e económicos. Por outro lado, quando os meios de comunicação são dirigidos pelo Estado eles exprimem, através da censura prévia ou da intimidação dos jornalistas, uma ideologia e as diretrizes políticas do partido único que se apossou do Estado. No que se refere à produção e comercialização dos bens culturais cada atividade tem as suas características considerando as faixas da população a que se destinam, entre outros fatores.

Comecemos pela literatura. Editam-se cada vez mais livros principalmente infantis, escolares, de autores socialmente conhecidos nomeadamente das áreas política, desporto ou de personalidades mediáticas ou seja presentes na comunicação social, livros de memórias de pessoas comuns, o que democratizou muito a possibilidade de edição em relação ao passado, reeditam-se clássicos da literatura de ficção e promovem-se novos autores nomeadamente no sentido de rejuvenescer o mercado. Mercado esse que tem contribuído para o fechamento de livrarias uma vez que a comercialização é realizada por grandes grupos económicos, e via internet sobretudo por grandes empresas virtuais como a Amazon. A crítica literária perdeu espaço na média (em Portugal apenas o “Jornal de Letras” quinzenal, a revista “Ler” e a “Colóquio Letras” editada pela Fundação Calouste Gulbenkian, semestrais, e semanalmente em pequeno espaço de dois periódicos). Por outro lado multiplicam-se os prémios literários em grande parte municipais e as festas literárias…enfim estas tendências podem ser observadas em grande parte do mundo. A iniciação literária no fim da adolescência até aos primeiros anos da década de setenta, com a leitura de clássicos portugueses, russos, ingleses, franceses e alemães, apenas era realizada por jovens com vocação literária que em parte seguiam mais tarde os estudos em Letras nas Universidades. Nestas, como sempre, realizam-se estudos sobre os principais autores e o intelectual mais representativo que simboliza esta atividade no nosso país é, sem dúvida, Eduardo Lourenço. O mais importante escritor português vivo é António Lobo Antunes, e é de destacar José Saramago, recentemente falecido e Prémio Nobel de Literatura em 1998, assim como clássicos, como Camões e Fernando Pessoa, que ajudam a projetar a qualidade da literatura portuguesa no estrangeiro. Até ao fim os anos 80 a arte do romance foi considerada a suprema arte europeia e os escritores acima citados como muitos outros contribuem para a importância e prestígio da literatura e dos escritores junto da população portuguesa. Não podemos ignorar este Diktat, mas lê-se cada vez menos e a importância da literatura, com exceção da literatura infantil, para o processo de livre pensamento na sociedade portuguesa é muito limitada.

Passemos ao cinema, uma atividade cultural de natureza popular. Quando um espetador vê um filme, vive através de personagens imaginários um processo de alienação. Terminado o filme, caso essa alienação tenha permitido um enriquecimento individual, o espetador passa por um processo de desalienação (que alarga os seus horizontes e o torna mais aberto à realidade e sensível às emoções) a que podemos chamar “cultura”. A conhecida “arte de esquerda” do fim do czarismo na Rússia e primeiros anos da revolução russa, voluntarista, vanguardista, com aura estética heroica que consagrou realizadores como Eisenstein (“O couraçado Potemkine”, “Alexandre Nevsky”), poetas também dedicados ao cinema como Maiakovski (Malevitch com o “cubofuturismo russo”) e muitos outros que abordaram injustiças sociais e turbulências políticas, soçobraram à mudança das diretrizes políticas, não resistiram aos mal-entendidos e desencantados ficaram pelo caminho, presos, obrigados a autocríticas, afastados, perseguidos…Maiakovski suicidou-se. Também entre 1933 e 1945, na Alemanha, foram produzidos mil filmes entre obras de propaganda nazi e filmes de entretenimento (cinema “escapista” com a construção artificial de stars system e técnicas publicitárias com o oferecimento de modelos de conduta adequados ao regime) que revelam as limitações da liberdade na indústria cinematográfica. É importante abordar filmes modernos e contemporâneos de realizadores que de destacaram com um cinema popular de qualidade. Ainda a este respeito, a opção de ver filmes programados por cine clubes (que foram de grande importância, em Portugal, a partir dos anos sessenta e tornaram-se janelas de abertura política e cultural na ditadura do Estado Novo) ou instituições similares (como o IndieLisboa ou o DocLisboa), ou pelo circuito comercial de cinema (do mercado de distribuição dominado em grande parte pela cinematografia norte-americana vocacionada para o cinema comercial de apelo popular) faz toda a diferença. Apenas para os cinéfilos mais exigentes, em geral, os filmes consagrados pelo cânone do “cinema de arte” dispensam o processo de desalienação.

E o que dizer do teatro como cultura de intervenção: Nos anos 30 e 40 o filósofo Walter Benjamin referiu-se ao teatro como instrumento de ação política e salientou o trabalho do seu amigo, o escritor Bertolt Brecht que escreveu peças clássicas como “As espingardas da senhora Carrar”, “Na selva das cidades”, “Tambores na noite” ou “A ópera dos três vinténs” e destacou o espírito do trabalho clandestino em tempos de perseguição referindo-se a uma importante personagem de Brecht. Mas quero destacar renomados produtores, encenadores e atores de teatro contemporâneos, em nível mundial, ocorrem-me José Celso Martinez Corrêa, brasileiro, diretor do Teatro Oficina de São Paulo, o falecido encenador argentino Victor Garcia responsável por grandes produções de Arrabal (“Cemitério de automóveis”, entre outras), e a recentemente falecida portuguesa Ruth Escobar, empresária, atriz, responsável, entre outras, pela montagem (reconhecida mundialmente), em São Paulo – onde se exilou e fez carreira – de “O balcão” de Jean Genet. Cada um à sua maneira dedicou-se ou dedica-se à produção e encenação de espetáculos que induzem o espetador a fazer parte do que se passa na cena. Ou seja, o teatro como ação política de intervenção. José Celso que há poucos anos apresentou em Lisboa e Bruxelas a peça “Bacantes”, é porventura o melhor exemplo do teatro militante tendo através da sua carreira encenado Tchekov , Brecht, Chico Buarque de Holanda e inúmeras produções sobre a realidade brasileira e latino-americana. A sua peça “Roda Viva”, encenada no fim dos anos sessenta no Rio de Janeiro e São Paulo, provocou tal reação no regime militar brasileiro que os atores foram detidos, despidos e impedidos de continuar as representações. José Celso foi preso, torturado e acabou por se exilar em Portugal. Também o encenador brasileiro Augusto Boal com o seu “teatro do oprimido” viu-se obrigado ao exilio na Argentina, lá ameaçado de morte nos anos setenta, veio para Portugal onde participou da criação do grupo “A Barraca”. Estas e outras experiências teatrais mostram, apesar de tudo, que mesmo nas melhores condições técnicas e artísticas, por diversas razões, custos de montagens, preços dos bilhetes, número de espetadores, ação da comunicação social sobre a divulgação e apoio desse teatro de intervenção, enfim… numa primeira análise tudo não passou de teatro.

E a música e as artes plásticas: com as suas especificidades, os pintores e importantes compositores e intérpretes de intervenção são lançados pela indústria cultural que se apropria da sua imagem, mistificados pela comunicação social, tornam-se ícones, atingem elevados valor de mercado e são absorvidos pelo sistema. Na pintura moderna são exemplos artistas plásticos como Picasso e Salvador Dali e na música popular Elvis Presley, Roling Stones, Beatles, Michael Jackson, entre muitos outros. A música rap tem adquirido espaço na contestação às realidades sociais, mas é pouco contemplada pelos órgãos de comunicação social mantendo apenas a sua influência nas redes sociais.

Parece consolidar-se a ideia de que a cultura por si só, e sem uma diretriz permanente de transformação da sociedade, não pode aspirar a ser eixo dessa transformação.

O futuro: a globalização da informação através das redes sociais e a democratização da informação, atente-se para a especial importância do feicebuque, anunciam um futuro que suscita várias e complexas questões. Entre elas, a fraude de roubo de dados que desrespeita a privacidade por parte da Facebook  e da Cambridge Analytica e o efeito do Regulamento Geral de Proteção de Dados, em vigor desde Maio, no sentido das pessoas se sentirem mais protegidas. Incógnitas…? A centralização de dados pelas empresas operadoras e a violação e manipulação desses bancos de dados trazem novos riscos que podem condicionar o livre pensamento?

Como ter em nós todos os sonhos do mundo?

Enfim…a cultura e a informação sozinhas não se podem transformar em agentes de transformação social. Ou podem?

Enfim, o eixo do nosso DEBATE é: Como transformar esta realidade?

Jacinto Rego de Almeida

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