Textos de subsídio ao debate sobre Direito ao Descanso e Desigualdades Sociais

Seguem abaixo dois artigos enviados por Isabel do Carmo, uma das introdutoras deste debate. O primeiro, intitulado “As consequências da sobreprodução”, pode ser lido clicando aqui. O segundo foi publicado no jornal Público, em dois de Agosto deste ano, e é de autoria de António Guerreiro, e pode ser lido abaixo.

O Paradoxo da Rainha Vermelha

António Guerreiro

Um dos grandes paradoxos do nosso tempo consiste no seguinte: as novas tecnologias e o desenvolvimento da inteligência artificial deveriam ter diminuído consideravelmente o volume e o horário de trabalho humano — ao ponto de se ter chegado a projectar o fim da sociedade do trabalho —, mas o que se passa é que as pessoas trabalham cada vez mais. E muitos são aqueles que se queixam de que o horário de trabalho estabelecido por contrato se tornou uma ficção porque ninguém regressa a casa enquanto houver tarefas urgentes a cumprir. A categoria do “proletário”, nas suas representações políticas, pertence ao passado, mas na verdade deu-se uma proletarização que atinge até as profissões liberais (os professores são um bom exemplo).

Em 1858, num célebre Fragmento sobre as máquinas que faz parte da Introdução geral à
Crítica da Economia Política, Marx colocou uma hipótese que só em tempos recentes suscitou uma grande atenção, tendo sido mesmo considerada “espantosa”, na medida em que parece não estar nada sintonizada com os fundamentos do marxismo. Essa hipótese é a de que a “lei do valor”, que estabelece uma equivalência entre o valor de uma mercadoria e a quantidade de trabalho que nela está investida, será ultrapassada por um sobrevalor que é o do conhecimento e da inteligência, num sentido muito próximo daquilo a que hoje chamamos “informação”, a que Marx dá o nome de “General Intellect” (ele utiliza a expressão em inglês). Segundo esta hipótese de Marx, as máquinas iriam tornar-se tão eficazes e produtivas que os homens ficariam libertos de todo o trabalho maquinal de produção de mercadorias e iriam aumentar ainda mais o conhecimento, a inteligência colectiva, que por sua vez faria aumentar a riqueza global. Um “cérebro humano colectivo” seria a figura de um novo e imenso poder.

Marx estava no entanto consciente de que não adviria daí o Paraíso e anteviu que as
potencialidades do “General Intellect” — produzir muito mais com muito menos trabalho — iria fazer crescer exponencialmente a actividade económica e, por conseguinte, também a energia requerida e a extensão do território explorado, até ao ponto em que não haveria — e de facto já não há — nenhum recanto isento e exterior a esta lógica. Ele intuiu que se daria um fenómeno que outros, recorrendo a uma personagem de Alice no País das Maravilhas, vieram a chamar o “paradoxo da Rainha vermelha”, que se traduz desta maneira: é preciso correr cada vez mais depressa para permanecer no mesmo lugar. Este paradoxo contém tanto a explicação para o aumento do trabalho, quando estava prometido o contrário, como a explicação para o facto de que a velocidade da degradação a que está sujeito o ambiente é sempre superior à velocidade da informação sobre o estado da degradação.

A ideia marxiana do “General Intellect”, de um “cérebro mundial”, serviu de inspiração a um “cibercomunismo” de extracção tecno-hippie, a que um filósofo chamado Mark Alizart chamou “criptocomunismo” e para o qual actualizou uma célebre formulação leninista: “criptocomunismo é os Sovietes mais o wifi”. Somos assim remetidos para um passado cheio de esperanças e promessas, quando um grupo de hippies lançou, no final dos anos 60, uma revista que se pretendia visionária e de contra-cultura — de que fala Mark Alizart no seu livro sobre o criptocomunismo — chamada Whole Earth Catalog, que misturava cibernética, ecologia e socialismo.

Meio século depois, somos obrigados a verificar que houve um excesso de optimismo. A
internet, com todas as suas vantagens, também permitiu que se erguesse uma sociedade de controle, nos antípodas dos sonhos libertários, e fez prosperar monopólios colossais (comerciais, publicitários, reticulares) que condicionam fortemente a democracia. A grande utopia do diálogo intercultural degenera cada vez mais em conflitos identitários e indignação que se alimenta em circuito fechado. E até aquilo a que se chamou, com imensa alegria e benevolência, “economia de partilha” caiu rapidamente sob o domínio de um “capitalismo cognitivo” que soube apropriar-se de trabalho grátis. Por isso é que se trabalha cada vez mais e uma nova escravatura está em marcha — aqui mesmo, diante de nós — para o bem-estar da economia mundial.

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