Textos de subsídio ao debate sobre Direito ao Descanso e Desigualdades Sociais

Seguem abaixo dois artigos enviados por Isabel do Carmo, uma das introdutoras deste debate. O primeiro, intitulado “As consequências da sobreprodução”, pode ser lido clicando aqui. O segundo foi publicado no jornal Público, em dois de Agosto deste ano, e é de autoria de António Guerreiro, e pode ser lido abaixo.

O Paradoxo da Rainha Vermelha

António Guerreiro

Um dos grandes paradoxos do nosso tempo consiste no seguinte: as novas tecnologias e o desenvolvimento da inteligência artificial deveriam ter diminuído consideravelmente o volume e o horário de trabalho humano — ao ponto de se ter chegado a projectar o fim da sociedade do trabalho —, mas o que se passa é que as pessoas trabalham cada vez mais. E muitos são aqueles que se queixam de que o horário de trabalho estabelecido por contrato se tornou uma ficção porque ninguém regressa a casa enquanto houver tarefas urgentes a cumprir. A categoria do “proletário”, nas suas representações políticas, pertence ao passado, mas na verdade deu-se uma proletarização que atinge até as profissões liberais (os professores são um bom exemplo).

Em 1858, num célebre Fragmento sobre as máquinas que faz parte da Introdução geral à
Crítica da Economia Política, Marx colocou uma hipótese que só em tempos recentes suscitou uma grande atenção, tendo sido mesmo considerada “espantosa”, na medida em que parece não estar nada sintonizada com os fundamentos do marxismo. Essa hipótese é a de que a “lei do valor”, que estabelece uma equivalência entre o valor de uma mercadoria e a quantidade de trabalho que nela está investida, será ultrapassada por um sobrevalor que é o do conhecimento e da inteligência, num sentido muito próximo daquilo a que hoje chamamos “informação”, a que Marx dá o nome de “General Intellect” (ele utiliza a expressão em inglês). Segundo esta hipótese de Marx, as máquinas iriam tornar-se tão eficazes e produtivas que os homens ficariam libertos de todo o trabalho maquinal de produção de mercadorias e iriam aumentar ainda mais o conhecimento, a inteligência colectiva, que por sua vez faria aumentar a riqueza global. Um “cérebro humano colectivo” seria a figura de um novo e imenso poder.

Marx estava no entanto consciente de que não adviria daí o Paraíso e anteviu que as
potencialidades do “General Intellect” — produzir muito mais com muito menos trabalho — iria fazer crescer exponencialmente a actividade económica e, por conseguinte, também a energia requerida e a extensão do território explorado, até ao ponto em que não haveria — e de facto já não há — nenhum recanto isento e exterior a esta lógica. Ele intuiu que se daria um fenómeno que outros, recorrendo a uma personagem de Alice no País das Maravilhas, vieram a chamar o “paradoxo da Rainha vermelha”, que se traduz desta maneira: é preciso correr cada vez mais depressa para permanecer no mesmo lugar. Este paradoxo contém tanto a explicação para o aumento do trabalho, quando estava prometido o contrário, como a explicação para o facto de que a velocidade da degradação a que está sujeito o ambiente é sempre superior à velocidade da informação sobre o estado da degradação.

A ideia marxiana do “General Intellect”, de um “cérebro mundial”, serviu de inspiração a um “cibercomunismo” de extracção tecno-hippie, a que um filósofo chamado Mark Alizart chamou “criptocomunismo” e para o qual actualizou uma célebre formulação leninista: “criptocomunismo é os Sovietes mais o wifi”. Somos assim remetidos para um passado cheio de esperanças e promessas, quando um grupo de hippies lançou, no final dos anos 60, uma revista que se pretendia visionária e de contra-cultura — de que fala Mark Alizart no seu livro sobre o criptocomunismo — chamada Whole Earth Catalog, que misturava cibernética, ecologia e socialismo.

Meio século depois, somos obrigados a verificar que houve um excesso de optimismo. A
internet, com todas as suas vantagens, também permitiu que se erguesse uma sociedade de controle, nos antípodas dos sonhos libertários, e fez prosperar monopólios colossais (comerciais, publicitários, reticulares) que condicionam fortemente a democracia. A grande utopia do diálogo intercultural degenera cada vez mais em conflitos identitários e indignação que se alimenta em circuito fechado. E até aquilo a que se chamou, com imensa alegria e benevolência, “economia de partilha” caiu rapidamente sob o domínio de um “capitalismo cognitivo” que soube apropriar-se de trabalho grátis. Por isso é que se trabalha cada vez mais e uma nova escravatura está em marcha — aqui mesmo, diante de nós — para o bem-estar da economia mundial.

Declaração da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano – 1972

Por sugestão de Jozé Sabugo, disponibilizamos o texto abaixo como subsídio ao debate sobre Ambiente do 2º Fórum. Boa leitura!

Conferência-de-Estocolmo

Declaração da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano – 1972

Documento também conhecido como Declaração de Estocolmo.

Tradução não oficial, original em inglês abaixo da versão em português. A Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, reunida em Estocolmo de 5 a 16 de junho de 1972, atenta à necessidade de um critério e de princípios comuns que ofereçam aos povos do mundo inspiração e guia para preservar e melhorar o meio ambiente humano, proclama que:

  1. O homem é ao mesmo tempo obra e construtor do meio ambiente que o cerca, o qual lhe dá sustento material e lhe oferece oportunidade para desenvolver-se intelectual, moral, social e espiritualmente. Em larga e tortuosa evolução da raça humana neste planeta chegou-se a uma etapa em que, graças à rápida aceleração da ciência e da tecnologia, o homem adquiriu o poder de transformar, de inúmeras maneiras e em uma escala sem precedentes, tudo que o cerca. Os dois aspetos do meio ambiente humano, o natural e o artificial, são essenciais para o bem-estar do homem e para o gozo dos direitos humanos fundamentais, inclusive o direito à vida mesma.
  2. A proteção e o melhoramento do meio ambiente humano é uma questão fundamental que afeta o bem-estar dos povos e o desenvolvimento econômico do mundo inteiro, um desejo urgente dos povos de todo o mundo e um dever de todos os governos.
  3. O homem deve fazer constante avaliação de sua experiência e continuar descobrindo, inventando, criando e progredindo. Hoje em dia, a capacidade do homem de transformar o que o cerca, utilizada com discernimento, pode levar a todos os povos os benefícios do desenvolvimento e oferecer-lhes a oportunidade de enobrecer sua existência. Aplicado errônea e imprudentemente, o mesmo poder pode causar danos incalculáveis ao ser humano e a seu meio ambiente. Em nosso redor vemos multiplicar-se as provas do dano causado pelo homem em muitas regiões da terra, níveis perigosos de poluição da água, do ar, da terra e dos seres vivos; grandes transtornos de equilíbrio ecológico da biosfera; destruição e esgotamento de recursos insubstituíveis e graves deficiências, nocivas para a saúde física, mental e social do homem, no meio ambiente por ele criado, especialmente naquele em que vive e trabalha.
  4. Nos países em desenvolvimento, a maioria dos problemas ambientais estão motivados pelo subdesenvolvimento. Milhões de pessoas seguem vivendo muito abaixo dos níveis mínimos necessários para uma existência humana digna, privada de alimentação e vestuário, de 1 habitação e educação, de condições de saúde e de higiene adequadas. Assim, os países em desenvolvimento devem dirigir seus esforços para o desenvolvimento, tendo presente suas prioridades e a necessidade de salvaguardar e melhorar o meio ambiente. Com o mesmo fim, os países industrializados devem esforçar-se para reduzir a distância que os separa dos países em desenvolvimento. Nos países industrializados, os problemas ambientais estão geralmente relacionados com a industrialização e o desenvolvimento tecnológico.
  5. O crescimento natural da população coloca continuamente, problemas relativos à preservação do meio ambiente, e devem-se adotar as normas e medidas apropriadas para enfrentar esses problemas. De todas as coisas do mundo, os seres humanos são a mais valiosa. Eles são os que promovem o progresso social, criam riqueza social, desenvolvem a ciência e a tecnologia e, com seu árduo trabalho, transformam continuamente o meio ambiente humano. Com o progresso social e os avanços da produção, da ciência e da tecnologia, a capacidade do homem de melhorar o meio ambiente aumenta a cada dia que passa. Chegamos a um momento da história em que devemos orientar nossos atos em todo o mundo com particular atenção às consequências que podem ter para o meio ambiente. Por ignorância ou indiferença, podemos causar danos imensos e irreparáveis ao meio ambiente da terra do qual dependem nossa vida e nosso bem-estar. Ao contrário, com um conhecimento mais profundo e uma ação mais prudente, podemos conseguir para nós mesmos e para nossa posteridade, condições melhores de vida, em um meio ambiente mais de acordo com as necessidades e aspirações do homem. As perspectivas de elevar a qualidade do meio ambiente e de criar uma vida satisfatória são grandes. É preciso entusiasmo, mas, por outro lado, serenidade de ânimo, trabalho duro e sistemático. Para chegar à plenitude de sua liberdade dentro da natureza, e, em harmonia com ela, o homem deve aplicar seus conhecimentos para criar um meio ambiente melhor. A defesa e o melhoramento do meio ambiente humano para as gerações presentes e futuras se converteu na meta imperiosa da humanidade, que se deve perseguir, ao mesmo tempo em que se mantém as metas fundamentais já estabelecidas, da paz e do desenvolvimento econômico e social em todo o mundo, e em conformidade com elas.
  6. Para se chegar a esta meta será necessário que cidadãos e comunidades, empresas e instituições, em todos os planos, aceitem as responsabilidades que possuem e que todos eles participem equitativamente, nesse esforço comum. Homens de toda condição e organizações de diferentes tipos plasmarão o meio ambiente do futuro, integrando seus próprios valores e a soma de suas atividades. As administrações locais e nacionais, e suas respetivas jurisdições são as responsáveis pela maior parte do estabelecimento de normas e aplicações de medidas em grande escala sobre o meio ambiente. Também se requer a cooperação internacional com o fim de conseguir recursos que ajudem aos países em desenvolvimento a cumprir sua parte nesta esfera. Há um número cada vez maior de problemas relativos ao meio ambiente que, por ser de alcance regional ou mundial 2 ou por repercutir no âmbito internacional comum, exigem uma ampla colaboração entre as nações e a adoção de medidas para as organizações internacionais, no interesse de todos.

A Conferência encarece aos governos e aos povos que unam esforços para preservar e melhorar o meio ambiente humano em benefício do homem e de sua posteridade.

PRINCÍPIOS –  expressam a convicção comum de que:

Princípio 1 –O homem tem o direito fundamental à liberdade, à igualdade e ao desfrute de condições de vida adequadas em um meio ambiente de qualidade tal que lhe permita levar uma vida digna e gozar de bemestar, tendo a solene obrigação de proteger e melhorar o meio ambiente para as gerações presentes e futuras. A este respeito, as políticas que promovem ou perpetuam o apartheid, a segregação racial, a discriminação, a opressão colonial e outras formas de opressão e de dominação estrangeira são condenadas e devem ser eliminadas.

Princípio 2 – Os recursos naturais da terra incluídos o ar, a água, a terra, a flora e a fauna e especialmente amostras representativas dos ecossistemas naturais devem ser preservadas em benefício das gerações presentes e futuras, mediante uma cuidadosa planificação ou ordenamento.

Princípio 3 – Deve-se manter, e sempre que possível, restaurar ou melhorar a capacidade da terra em produzir recursos vitais renováveis.

Princípios 4 – O homem tem a responsabilidade especial de preservar e administrar judiciosamente o patrimônio da flora e da fauna silvestres e seu habitat, que se encontram atualmente, em grave perigo, devido a uma combinação de fatores adversos. Consequentemente, ao planificar o desenvolvimento econômico deve-se atribuir importância à conservação da natureza, incluídas a flora e a fauna silvestres.

Princípio 5 – Os recursos não renováveis da terra devem empregar-se de forma que se evite o perigo de seu futuro esgotamento e se assegure que toda a humanidade compartilhe dos benefícios de sua utilização.

Princípio 6 – Deve-se por fim à descarga de substâncias tóxicas ou de outros materiais que liberam calor, em quantidades ou concentrações tais que o meio ambiente não possa neutralizá-los, para que não se causem danos graves e irreparáveis aos ecossistemas. Deve-se apoiar a justa luta dos povos de todos os países contra a poluição.

Princípio 7 – Os Estados deverão tomar todas as medidas possíveis para impedir a poluição dos mares por substâncias que possam por em perigo a saúde do homem, os recursos vivos e a vida marinha, menosprezar as possibilidades de derramamento ou impedir outras utilizações legítimas do mar.

Princípio 8 – O desenvolvimento econômico e social é indispensável para assegurar ao homem um ambiente de vida e trabalho favorável e para criar na terra as condições necessárias de melhoria da qualidade de vida.

Princípio 9 – As deficiências do meio ambiente originárias das condições de subdesenvolvimento e os desastres naturais colocam graves problemas. A melhor maneira de saná-los está no desenvolvimento acelerado, mediante a transferência de quantidades consideráveis de assistência financeira e tecnológica que complementem os esforços internos dos países em desenvolvimento e a ajuda oportuna que possam requerer.

Princípio 10 – Para os países em desenvolvimento, a estabilidade dos preços e a obtenção de ingressos adequados dos produtos básicos e de matérias primas são elementos essenciais para o ordenamento do meio ambiente, já que há de se ter em conta os fatores econômicos e os processos ecológicos.

Princípio 11 – As políticas ambientais de todos os Estados deveriam estar encaminhadas para aumentar o potencial de crescimento atual ou futuro dos países em desenvolvimento e não deveriam restringir esse potencial nem colocar obstáculos à conquista de melhores condições de vida para todos. Os Estados e as organizações internacionais deveriam tomar disposições pertinentes, com vistas a chegar a um acordo, para se poder enfrentar as consequências econômicas que poderiam resultar da aplicação de medidas ambientais, nos planos nacional e internacional.

Princípio 12 – Recursos deveriam ser destinados para a preservação e melhoramento do meio ambiente tendo em conta as circunstâncias e as necessidades especiais dos países em desenvolvimento e gastos que pudessem originar a inclusão de medidas de conservação do meio ambiente em seus planos de desenvolvimento, bem como a necessidade de oferecer-lhes, quando solicitado, mais assistência técnica e financeira internacional com este fim.

Princípio 13 – Com o fim de se conseguir um ordenamento mais racional dos recursos e melhorar assim as condições ambientais, os Estados deveriam adotar um enfoque integrado e coordenado de planejamento de seu desenvolvimento, de modo a que fique assegurada a compatibilidade entre o desenvolvimento e a necessidade de proteger e melhorar o meio ambiente humano em benefício de sua população.

Princípio 14 – O planejamento racional constitui um instrumento indispensável para conciliar às diferenças que possam surgir entre as exigências do desenvolvimento e a necessidade de proteger y melhorar o meio ambiente.

Princípio 15 – Deve-se aplicar o planejamento aos assentamentos humanos e à urbanização com vistas a evitar repercussões prejudiciais sobre o meio ambiente e a obter os máximos benefícios sociais, econômicos e ambientais para todos. A este respeito devem-se abandonar os projetos destinados à dominação colonialista e racista.

Princípio 16 – Nas regiões onde exista o risco de que a taxa de crescimento demográfico ou as concentrações excessivas de população prejudiquem o meio ambiente ou o desenvolvimento, ou onde, a baixa densidade d4e população possa impedir o melhoramento do meio ambiente humano e limitar o desenvolvimento, deveriam se aplicadas políticas demográficas que respeitassem os direitos humanos fundamentais e contassem com a aprovação dos governos interessados.

Princípio 17 – Deve-se confiar às instituições nacionais competentes a tarefa de planejar, administrar ou controlar a utilização dos recursos ambientais dos estados, com o fim de melhorar a qualidade do meio ambiente.

Princípio 18 – Como parte de sua contribuição ao desenvolvimento econômico e social deve-se utilizar a ciência e a tecnologia para descobrir, evitar e combater os riscos que ameaçam o meio ambiente, para solucionar os problemas ambientais e para o bem comum da humanidade.

Princípio 19 – É indispensável um esforço para a educação em questões ambientais, dirigida tanto às gerações jovens como aos adultos e que preste a devida atenção ao setor da população menos privilegiado, para fundamentar as bases de uma opinião pública bem informada, e de uma conduta dos indivíduos, das empresas e das coletividades inspirada no sentido de sua responsabilidade sobre a proteção e melhoramento do meio ambiente em toda sua dimensão humana. É igualmente essencial que os meios de comunicação de massas evitem contribuir para a deterioração do meio ambiente humano e, ao contrário, difundam informação de caráter educativo sobre a necessidade de protegê-lo e melhorá-lo, a fim de que o homem possa desenvolver-se em todos os aspetos.

Princípio 20 – Devem-se fomentar em todos os países, especialmente nos países em desenvolvimento, a pesquisa e o desenvolvimento científicos referentes aos problemas ambientais, tanto nacionais como multinacionais. Neste caso, o livre intercâmbio de informação científica atualizada e de experiência sobre a transferência deve ser objeto de apoio e de assistência, a fim de facilitar a solução dos problemas ambientais. As tecnologias ambientais devem ser postas à disposição dos países em desenvolvimento de forma a favorecer sua ampla difusão, sem que constituam uma carga econômica para esses países.

Princípio 21 – Em conformidade com a Carta das Nações Unidas e com os princípios de direito internacional, os Estados têm o direito soberano de explorar seus próprios recursos em aplicação de sua própria política ambiental e a obrigação de assegurar-se de que as atividades que se levem a cabo, dentro de sua jurisdição, ou sob seu controle, não prejudiquem o meio ambiente de outros Estados ou de zonas situadas fora de toda jurisdição nacional.

Princípio 22 – Os Estados devem cooperar para continuar desenvolvendo o direito internacional no que se refere à responsabilidade e à indenização às vítimas da poluição e de outros danos ambientais que as atividades realizadas dentro da jurisdição ou sob o controle de tais Estados causem a zonas fora de sua jurisdição.

Princípio 23 – Sem prejuízo dos critérios de consenso da comunidade internacional e das normas que deverão ser definidas a nível nacional, em todos os casos será indispensável considerar os sistemas de valores prevalecentes em cada país, e, a aplicabilidade de normas que, embora válidas para os países mais avançados, possam ser inadequadas e de alto custo social para países em desenvolvimento.

Princípio 24 – Todos os países, grandes e pequenos, devem ocupar-se com espírito e cooperação e em pé de igualdade das questões internacionais relativas à proteção e melhoramento do meio ambiente. É indispensável cooperar para controlar, evitar, reduzir e eliminar eficazmente os efeitos prejudiciais que as atividades que se realizem em qualquer esfera, possam ter para o meio ambiente, mediante acordos multilaterais ou bilaterais, ou por outros meios apropriados, respeitados a soberania e os interesses de todos os estados.

Princípio 25 – Os Estados devem assegurar-se de que as organizações internacionais realizem um trabalho coordenado, eficaz e dinâmico na conservação e no melhoramento do meio ambiente.

Princípio 26 – É preciso livrar o homem e seu meio ambiente dos efeitos das armas nucleares e de todos os demais meios de destruição em massa. Os Estados devem-se esforçar para chegar logo a um acordo – nos órgãos internacionais pertinentes – sobre a eliminação e a destruição completa de tais armas.

21ª reunião plenária 16 de junho de 1972 Capítulo 11

Artigo de Amândio Silva sobre o processo de criação do cartaz do 2º Fórum

Cartaz_A3_2019 B(2)_page-0001Recebemos de Amândio Silva, da Comissão Organizadora, o interessante artigo, que segue abaixo, sobre o processo democrático de construção do cartaz deste 2º Fórum.

CARTAZ DO 2º FÓRUM LIBERDADE E PENSAMENTO CRÍTICO: UMA CURIOSA EXPERIÊNCIA DE COOPERAÇÃO CONFLITUAL

Porque fui o pivô do longo processo de decisão da escolha do Cartaz, dominado pela imagem de Greta Thunberg, enviando e recebendo dezenas de emails, até à escolha definitiva, durante quase um mês, pude aperceber-me melhor de como foi estimulante o confronto de opiniões, a extrema vivacidade e convicção na defesa dos pontos de vista, o duelo do pragmatismo com o ideológico, com sucessivas votações, conforme a evolução dos acontecimentos, mas sempre com a saudável nota democrática, de, em todas elas, ter naturalmente prevalecido o que decidiu a maioria.

Relembremos:

Na primeira fase, ou mantínhamos o modelo anterior das oito fotos ou se optava pela foto única de Greta, símbolo da luta conta a destruição do ambiente, um dos temas do Fórum. A opção foi por Greta, com várias interpretações da foto, desde a prece pela humanidade até à raiva contida pela resistência à causa, mas com o consenso da sua representatividade.

A seguir, a notícia desestabilizadora da provável manipulação de Greta por interesses pouco ecológicos. O receio de alguma bomba incendiária na sua imagem. Nova consulta: Mantém-se a Greta ou mudamos de cartaz? Vitória clara de que era preciso mudar.

Novas propostas de foto única (Alípio de Freitas, Agostinho da Silva) ou um cartaz com quatro fotos (Pepe Mujica, Amílcar Cabral, Alípio de Freitas, Mercedes Soza).

Neste momento, a minha posição de ouvidor obrigou que trouxesse a público a voz de uma minoria que clamava que se devia manter Greta, pois nada havia de concreto nas denúncias. E então surgiu a alternativa de continuar Greta, mas com alguma referência que salvaguardasse um eventual escândalo até novembro. Esta solução, em confronto com o cartaz com as quatro respeitabilíssimas personagens acima indicadas, mereceu uma expressiva maioria.

Contradição com a rápida decisão tomada, uma semana atrás, de que era preciso mudar o cartaz? Precipitação nessa altura? Preguiça de pensamento crítico?

E começou então a última “batalha”, a da expressão que acompanharia a foto de Greta.

E aqui devo introduzir a instigante reflexão de Camilo Mortágua, com mais pensamento crítico sobre o embate em análise.

 ” O efeito GRETA para a defesa do ambiente foi negativo ou positivo?

Os fins de uma qualquer manipulação teriam por objetivo o quê? favorecer ou combater a opinião de que é preciso salvar o planeta?

A quem poderia interessar, para além da família, objetivamente, e talvez mais indiretamente o País (Suécia), a transformação duma criança em ícone mundial pelo ambiente?

Existe ou não uma provável contradição entre a probabilidade duma manobra com efeitos perniciosos para o ambiente mas favorável aos grandes círculos especulativos pela desflorestação do mundo, tendo em consideração os resultados?

GRETA e um possível prémio NOBEL, seriam justificativa suficiente para montar uma operação deste tipo?

Quem sustenta financeiramente a atividade PLANETÁRIA de Greta, de Estocolmo aos Estados unidos?

É razoável supor que a Necessidade de combater Trump e sua gente e os malefícios POSSIVEIS para certos setores económicos americanos e não só, tenham admitido fabricar-estimular uma referência-símbolo, para melhor defender, num tempo posterior, os seus interesses fundamentais?

Enfim, uma iniciativa que despertou o Mundo para a necessidade de políticas e comportamentos amigos da Natureza, objetivamente, com genuidade ou manha, foi ou não positiva?

PORQUE O IMPORTANTE PARA A HUMANIDADE É O RESULTADO! – não é saber da intencionalidade dos mentores e ou atores!

O TEMPO, auxiliar avaliador definitivo do Pensamento Crítico, nos irá esclarecer as dúvidas.

Em frente…. Verdade ou mentira?

(mesmo que tenha sido uma mentira do ponto de vista de manifestação pessoal, pode ter acabado por ser uma coisa boa e positiva em defesa do ambiente?)”

Pelo final do texto, penso que Camilo preferia “verdade ou mentira?” à vitoriosa, “Greta: é a terra que está em causa!”, aliás, mais uma vez, por grande maioria.

Estou convencido que prevaleceu na opção o sentido de que a primeira poderia induzir dúvida sobre Greta, enquanto a segunda tanto pode significar “Greta, estamos contigo!” como “Greta, cuidado, não te deixes manipular, porque o que está em causa é a VIDA!”, ou “Greta: não nos decepciones!” ou o que cada um de vós achar melhor.

Continuemos este confronto salutar, esta prática da democracia, com mais ou menos pensamento crítico, mas sempre com uma vibrante COOPERAÇÃO CONFLITUAL.

Amândio Silva

 

Programa da Sala Cruzeiro Seixas (Ginásio)

Na programação da sala dedicada às artes plásticas, não houve qualquer imposição de critérios estilísticos, temáticos ou outros que condicionassem a liberdade total que entendemos dever ser dada aos artistas naquele que se pretende como um espaço de Liberdade. À semelhança do ano anterior, a selecção dos artistas teve apenas em linha de conta três aspectos essenciais: a identificação com a causa da Liberdade, o cumprimento dos requisitos do Regulamento, e a ordem de inscrição. Congratulamo-nos com a presença de artistas de largo currículo internacional, como de outros que têm apenas o estatuto de amadores seja por opção própria ou porque a sorte não lhes sorriu até aqui, alguns estão presentes pela primeira vez outros são já repetentes, mas se a todos devemos uma palavra de gratidão pelo seu contributo enriquecedor, entre os que se estreiam cabe um especial destaque para o grupo de alunos do 12.º ano da Escola Secundária Camões, que oportunamente acorreram ao nosso desafio e decidiram brindar-nos com uma magnífica instalação que é não apenas um objecto estético de grande qualidade mas também um exemplo de afirmação de cidadania e de pensamento crítico.

Por outro lado, neste ano introduzimos uma inovação, procurando conjugar as ARTES PLÁSTICAS com outra forma de arte universal por excelência: a MÚSICA. Na verdade ambas têm em comum o facto de serem uma linguagem universal, passível de ser prontamente compreendida por todos os povos da Terra, e uma é tocada pela outra no plano estético. O desenho executa-se segundo linhas rítmicas, tal como a música flui no colorido das formas. Por isso nada mais natural do que colocá-las em diálogo, ajudando a criar a “dinâmica da sala”. Esta, este ano, presta tributo a Artur do Cruzeiro Seixas (n. 1920), um dos mais importantes artistas nascidos no séc. XX, um artista do “desconcerto” que nos leva a questionarmo-nos e a desenvolver o pensamento crítico, que é também o decano das artes plásticas em Portugal e nome fundamental do Surrealismo internacional. Por isso, lhe chamámos SALA CRUZEIRO SEIXAS.

I – EXPOSIÇÃO “ARTES LIVRES E SEM PLÁSTICAS”
(a decorrer entre as 9h30 e as 18h20)

Artistas plásticos (por ordem alfabética):
Alice Barreira / Ana Freitas / António Maia (cartoons) / Carmo Pólvora / Catarina Crespo /
Ernesto Matos / Francisco Lampreia / João & David Zink (instalação “Choose your way”) / José Brito / Kah Smith (fotografia) / Paulo Uliarud Uliarud Pereira / Teresa Bray (“arts&crafts”)

Instalações:

“OceanUs” (Grupo de alunos do 12.º ano da Escola Secundária Camões, sob a
(orientação e coordenação dos profs. António Gabriel e Felisberta Monteiro) – visa uma sensibilização para o tema plásticos nos oceanos

“45 Pedras da Liberdade” (Ernesto Matos) – o público é convidado a participar pintando livremente, a seu modo, uma “pedra da calçada”)

“Choose your way” / Escolhe o teu caminho! (João & David Zink) – o público é desafiado a escolher um de dois caminhos possíveis (o do plástico/lixo industrial ou o da preservação da Natureza, que também se traduzem pelo do “Burro Místico” ou o da “Lux Aeterna”, )

II – ACTIVIDADES

MANHÃ
9h30 – Sessão de abertura II FORUM LIBERDADE E PENSAMENTO CRÍTICO (Intervenções do Director da Escola e de um representante da Comissão Organizadora / Apresentação do Fórum Multimedia e da Sala Cruzeiro Seixas)

10h15-11h25 – O PAPEL SOCIAL DA ARTE (Mesa-Redonda com os artistas – António seguida de debate com o público) – moderador: David Zink

11h30-12h30 – FREE PIANO SESSION – Piano aberto a elementos do público que saibam e queiram tocar, mediante inscrição e selecção prévias

TARDE
(programa musical)

14h20-14h35 – Duo KAH & SAM SMITH
MPB
Kah Smith: voz / Sam Smith: Baixo eléctrico de 6 cordas

14h40-15h10 – DZ’s KOZMIC ARCH ESTRA
sintetizadores / guitarra eléctrica / drum machine

15h15- 16h00 – Quinteto TÁGIDE
Tágide é um grupo de música criativa de câmara constituído por elementos que se têm cruzado em diversos projectos da cena da improvisação portuguesa e que têm como pólo aglutinador o MIA – Encontro de Música Improvisada de Atouguia da Baleia. Com esta formação inédita, pode adivinhar-se uma dinâmica musical efervescente em resultado de um processo construtivo contínuo.
Músicos:
Paulo Chagas – flauta, oboé
João Pedro Viegas – clarinete, clarinete-baixo
Helena Espvall – violoncelo
João Madeira – contrabaixo
Manuel Guimarães – piano, guitarra

16h05 – 16h25 – Trio FIO AZUL
André Fausto: guitarra acústica
Josina Filipe: teclado electrónico não especificado (tipo piano eléctrico)
Sabugo: adufe

16h30-16h40 – David Zink
teclados / voz

16h45-17h – MOVIMENTO LIBERDADE E PENSAMENTO CRÍTICO (comunicação de Camilo Mortágua)

17h05-17h25 – Coro CONSONANTE / Luiz Pedro Faro (maestro)
ConSonante canta obras de Lopes-Graça
cantores (sopranos/contraltos/tenores/baixos):
Ana Melo / Ana Valente / Carolina Machado / Henrique Marques / Inês Faro / José Nuno Pimentel / Lígia Paula / Luís Pedro Martins / Luiz Pedro Faro / Magda Ribeiro / Manuela Gralha / Martha Punter / Ma.de Lurdes Pinto / Paula Carneiro / Rita Jorge / Sérgio Duarte

17h30-18h20 – SESSÃO DE ENCERRAMENTO
(apresentação das conclusões pelos coordenadores das salas / Intervenção de representante da CML / Encerramento pela Comissão Organizadora)

(programa sujeito a alterações por motivos imprevistos)

PROGRAMA COMPLEMENTAR

16h00-16h25 – PERFORMANCE NA SALA DE CINEMA
“Linhas Invisíveis e Divisíveis”
MAFALDA SILVGAR & CO-COLLECTIVE
artistas (por ordem alfabética):
Doutor Ton
Mafalda Silvgar
Paulo Uliarud Uliarud Pereira

Texto sobre Obscurantismos

Recebemos este precioso texto elaborado pelo professor do Liceu Camões, José Esteves, sobre o tema dos Obscurantismos, que será abordado na parte da tarde na Sala Carolina Beatriz Ângelo por Jorge Saraiva e Isabel Allegro Magalhães, e moderado e relatado por Guadalupe Magalhães Portelinha e Vitor Lima. Para ler este artigo, é só clicar aqui.